Foi no tão famoso e acarinhado jantar de Natal que descobri que, yours trully, poderia ser, na realidade, um individuo completamente diferente, com um background no mínimo especial, com direito a notícia de abertura de jornal da RTP (na altura não existia TVI), no mínimo, duas vezes!!
O vinho já circulava em abundância pela corrente sanguínea de meus familiares e a conversa ia animando com o tempo, muitas vezes centrada na filha do meu primo, ainda muito nova. Conversa puxa conversa, e do nada falava-se das minhas aventuras enquanto criança desnaturada...
1º motivo de abertura de noticiário sensacionalista: corria o ano de 1986, eu com 3 verões completados, feliz, na minha vidinha banal e rotineira, acordar, comer, cocó, dormir, cocó, dar prazer a mim próprio, comer, cocó, cocó e o ocasional banho. Tudo corria bem quando, do nada, a bola de futebol que minha progenitora transportava na barriga desaparece e no seu lugar, para grande desilusão minha e do meu progenitor, surge uma míuda. Chamaram-lhe irmã, palavras como sarilhos, perigo, ameaça e estrangulamento ecoaram nos restiros da minha mente e fizeram mais sentido que irmã.
Deixemos de história e passemos aos factos, o que é certo é que desde o nascimento da ameaça senti uma tremenda injustiça, chegando ao ponto de voltar a urinar nas calças para chamar a atenção (o que explica o incidente quando vi o Toy no Forum Almada). Ninguém se atrevia a deixar-me sozinho com a ameaça, era um perigo, batia, fazia mal, enfim, era um puto mau...mau, MAS COM RAZÃO!!! Férias com pais e tios, Algarve, janela da varanda aberta, 3º andar, eu, ameaça na cadeirinha de baloiço, porta fechada à chave e pais e tios do outro lado da porta. O pânico foi uma constante durante 3 (!) horas, com as mais diversas ideias homicidas e violentas a povoarem os pensamentos dos meus familiares, para além da constante chamada da minha atenção para a porta, de modo a esquecer a presença da ameaça...apesar de a sentir....3 horas volvidas e várias tentativas de arrombamento da porta depois eis que chega o vizinho do lado...aventuras aéreas por parte do papá e tudo se resolveu pelo melhor. Sem danos para a ameaça.
2º motivo de abertura de noticiário sensacionalista, a notícia poderia ser algo como:
"Criança da 3ª classe assassina a sangue frio a professora, os colegas de classe, os auxiliares de aprendizagem (contínuos na minha altura), cães, gatos e periquitos da escola" tudo porque, numa bela manhã solarenga, eu, novamente em toda a imensidão da minha inocência, transportei alegremente uma pistola verdadeira para a escola, desconhecendo o perigo que me fazia acompanhar (ou não?). A pistola não estava carregada e não houve problemas, tinha sido emprestada ao meu pai para restaurar por um amigo de fora da cidade.
E agora, concluo culpando os meus pais por não ter uma vida diferente e um livro cheio de recortes de jornais e revistas da especialidade. Culpo o meu pai por ter saltado a varanda do vizinho e ainda chegar a tempo de impedir a reaçização do batido de ameaça.
Culpo o meu pai por não ter a pistola carregada e pronta a disparar.
Sei que a minha vida seria bem diferente, com muito mais cor e alegria...e as memórias....ah memórias....